O lugar da Arte
“A Arte não é um passatempo e sim um sacerdócio.”
Jean Cocteau
(1889-1963)
A frase do poeta e dramaturgo francês que serve de epígrafe para o presente texto veio-me à mente após uma conversa recente com um companheiro do grupo de Arte espírita ao qual estou vinculado, a Cialemarte.
Dizia-me o amigo de longos anos que em uma lista de prioridades minhas e dele, o grupo de Arte espírita ocuparia lugares absolutamente opostos entre a minha lista e a sua, embora ele adore fazer Arte e goste de estar no grupo. Isto equivale a dizer “Ok, eu gosto de fazer Arte, mas o grupo de Arte espírita não faz parte de minhas prioridades, por isso será um dos primeiros elementos a ser deixado de lado quando eu estiver sem tempo”.
Para além de minhas elucubrações, fiquei pensando na simples questão da lista de prioridades. Pensei tanto que não pude dormir esta noite (de 21 para 22 de julho de 2010), embora o cansaço seja grande e a necessidade de sono seja uma realidade incômoda. A questão tomou tal peso que forçou-me a levantar de meu confortável e aquecido leito, ligar o computador e começar a escrever enquanto saboreio uma fumegante caneca de chá (estou tentando diminuir o café).
Será justo colocar a Arte dentro de uma lista de prioridades quando ela se impõe como uma necessidade por si só? Desde que me entendo por gente experimento um fascínio pelas manifestações artísticas, basta dizer que era apreciador de ópera e de poesia aos 7 anos de idade. Apreciar a Arte levou-me naturalmente a produzir Arte e buscar sempre melhorar, aprimorar meu trabalho, preencher meu cérebro com informações que proporcionassem uma maior consciência sobre o que eu fazia.
Nos últimos 20 anos, não houve um único dia em minha vida no qual a Arte não tenha estado presente.
Lembro-me de que em meu casamento tive todo um cuidado na elaboração da trilha sonora da cerimônia e da festa, sem contar o fato de que os jovens da Cialemarte prepararam um esquete como forma de presente.
No dia do desencarne de meu pai vi-me escolhendo bem as palavras para as despedidas de costume antes do sepultamento, buscando um efeito ao mesmo tempo lúcido, honesto e coerente com os princípios doutrinários. Lembro-me até de que uma semana depois lá estava eu no ensaio do grupo que, na época, ensaiava uma peça cuja cena inicial era exatamente um cortejo fúnebre. Ensinei os componentes a pegar alças de um caixão invisível e caminhar compassadamente.
Ao longo dos anos sacrifiquei domingos em família, festas, passeios, feriados, viagens e até propostas de emprego em função dos trabalhos desenvolvidos com o grupo de Arte espírita.
Realmente, em uma lista de prioridades não cabe a Arte, pois ela faz parte de meu ser. É como se me pedissem para deixar de respirar, ou para arrancar um braço. Simplesmente não vivo sem ar(te) e não posso amputar-me.
Não quero com isso dizer que todos devam viver uma vida de extrema dedicação a ponto de tornar-se ausente como chefe de família, mãe, filho, irmão, amigos, nem levar uma vida de total ascetismo. O exagero é sempre prejudicial e deve ser evitado; até mesmo coisas boas e úteis, quando exercidas com desequilíbrio, podem tornar-se o flagelo dos homens.
A questão que se me impõe no momento e que eu divido com um leitor provável é: qual o lugar que a Arte ocupa em você?
Costumo dizer que a Arte é uma dama caprichosa e exigente, para quem nossa dedicação deve ser sincera e carregada de seriedade, caso contrário, não mereceremos seus favores e préstimos, não mereceremos nos chamar de artistas.
Nosso esforço e empenho na Arte devem ser constantes, ainda que não exclusivos. Devem ser plenos, mas sem desequilíbrios. Devem ser verdadeiros, sem quaisquer outros interesses que não a expressão do que somos e do que sonhamos.
Penso novamente em meu amigo. Para ele a Arte representa um passatempo, do qual ele abre mão com certa facilidade. E pensando nisso, eu sinto pena.