Artista Respira Fé
Ney Wendell*
Onde a penúria chora e a revolta esbraveja,
Onde o mal se amontoa e a aflição nos espia,
Conduzamos o pão, a veste, a luz, o amparo,
O verbo que restaura, a benção que alivia...
(MARIA DOLORES, 1991, p. 80)
Firma-se aqui, a visão do artista como uma benção que alivia a humanidade de tantas dores e o verbo criador de impactos saudáveis que restaura o ser. Por isso, a necessidade de saber pulsar sua fé em cada ação artística.
Há na construção de uma obra de arte, um caminho da criação etérea em nossa alma, passando pela concretização poeticamente sólida e chegando à fluidez do público, que reverbera as reflexões e sentimentos mobilizados. Neste percurso, existe um foco claro quando se delineia para o artista a sua escolha, que o leva a execução corajosa, a tirar de si forças criativas que fluem por cada momento da construção estética. Quanto maior a motivação e o anseio em saborear a criação viva, maior o levante da sua alma para nutrir o objeto artístico. Pode-se dizer uma paixão de encantar-se pela escolha que fez e se manter criando ou num impulso que se torna a alavanca diária, cheia de vontade para gerar.
Vê-se aí um ato de fé do artista. Uma certeza que nasce quando se define a escolha do itinerário estético e se firma a vontade de materializar o que sua alma grita.
Mas, é preciso saber que a fluência criativa solicita um estado saudável do artista, uma vontade que venha sincera e viva de si. Isto se torna um problema, quando se perde o “fio da meada” ou a intenção primeira e mantenedora do fazer artístico que foi escolhido. Tornam-se presentes então, as dificuldades cotidianas, as invasões de dúvidas desagregadoras, a perda de concentração ou a sensação de desencontro consigo mesmo. Soa aí, o alarme de um estado de perda do caminho, de cegueira diante das ideias e ações e também uma falta de ânimo perante tantas questões insolúveis. Sabe-se que é necessário argumentar, avaliar-se na trajetória com vigor afetivo. Mas, quando o problema torna-se a trilha única e a solução desgasta-se na desistência, o artista paralisa ou perde seu vínculo com o desejo salutar da alma.
Para isso, é necessário retornar à sua capacidade ímpar que é saber ter um foco, saber que tem as devidas competências para gerar uma obra e que já conhece o caminho do éterico criar, ao manifestar materialmente o objeto artístico. O Emmanuel bem nos esclarece sobre isso ao dizer que “o artista, de um modo geral, vive quase sempre mais na esfera espiritual que propriamente no plano terrestre (1980, p. 102)”. É este diálogo poético com a sua alma e com as dimensões mais sutis que torna o artista capaz de efetivar a manifestação estética.
Este caminho é nato do fazedor das artes e pode ser bem explicado como um ato de fé que ele percorre, sendo um foco pulsante entre o espiritual (inspiração) e a execução (expiração). Desta forma, o artista compõe sua obra como ato natural de respirar, que segue sem pestanejar numa atitude de sobrevivência, pois, necessita do fôlego e do jogar o ar para as suas células criativas.
O artista sabe por em prática esta fé como a simplicidade da respiração. É a sua viva vontade de manifestar obras no mundo. Segue neste sentido, o caminho de que “a fé se diz da confiança que se tem no cumprimento de uma coisa, da certeza de atingir um fim” (KARDEC, 1978, p.245). Por isso, é necessário respirar com propriedade e ter a consciência que não pode perde a coragem e a vontade. É só lembrar que sua respiração é um ato de viver e que a sua obra é o resultado deste entrar e sair de si, deste imergir e emergir com as sagradas manifestações estéticas.
É uma simplicidade de trazer o ar para si, de encher-se de vida e saber que “a fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem vencer os obstáculos, nas pequenas, como nas grandes coisas (KARDEC, 1978, p.245)”.
Nesta trilha, existe o perigo da angústia em apressar-se, do desespero do estar perdido ou da desistência, quando se escolhe um respirar que não é saudável. É como querer sobreviver bem em escolhas de ares que deixa o ser doente e totalmente sem imunidade diante das peripécias da vida. Para respirar saudavelmente, com a fé necessária e viva é preciso saber escolher aquilo que faz bem a si e ao outro, mantendo a vivência com as devidas proteções, mesmo em ambientes insalubres, pois, sabe respirar a fé na fluência da criação artística.
Neste momento é preciso ter a atenção de que “a fé sincera e verdadeira é sempre calma; dá a paciência que sabe esperar (KARDEC, 1978, p.245)”. É no instante da sensação de perda, deste fluxo contínuo e sereno de inspirar e expirar as obras, que é necessário ter a devida calma para retomar a fluidez íntima e própria da alma que pode se expressar com fé.
Sabe-se que esta fé é o eixo que mantém a produção do artista, que o segura firme diante das adversidades e o deixa impregnado de vigor para cumprir sua missão estética no mundo. Por isso, saber respirar nas escolhas saudáveis ou caminhar por aquilo que faz bem é um responsabilidade humanitária para com aqueles que vão saborear e se envolver com as suas criações.
O artista é um servidor do bem estético, como um atuante solidário que gera fé no outro e, assim, entender que é um bom trabalhador que compreende, antes de tudo, o sentido profundo da oportunidade que recebeu e com isso “valoriza todos os elementos colocados em seu caminho, como respeita as possibilidades alheias ( EMMANUEL, 2009, p. 161)”.
Por isso, a respiração de fé que o artista imprimiu na obra vai envolver o público numa determinada respiração também. O estado daquele que presencia a obra vai ser de inspirar e expirar, seguindo a trilha do artista. Isto solicita, ainda mais, a responsabilidade singular da escolha por um processo e resultado saudável da criação, gerando saúde no público, na reverberação da imprescindível fé simples para sobreviver com bem estar nos dias de hoje.
Referências Bibliográficas
DOLORES, Maria. Antologia da espiritualidade; [psicografia de] Francisco Cândido Xavier. 4ª edição. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1991. 116p
EMMANUEL [Espírito]. Caminho, verdade e vida; [psicografia de] Francisco Cândido Xavier. 28ª edição. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2009. 380p
_____________ . O consolador. ; [psicografia de] Francisco Cândido Xavier. 8ª edição. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1980. 235p
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Salvador Gentille. 107ª edição. Araras-SP: Instituto de Difusão Espírita, 1978.
* Arteducador, Diretor Teatral, Gestor Cultural e Pesquisador das Artes Cênicas. Contato: ney.arte@hotmail.com