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Ator: a difícil arte de ser outro

            Em um curto espaço de uma semana fui ao cinema e ao teatro. Começo falando do segundo, no qual tive a oportunidade de assistir ao espetáculo “Vicente Celestino – A voz orgulho do Brasil”, uma produção da Cia. Limite 151, com Alexandre Schumacher no papel título.

            Com um elenco afiado (e afinado), a peça conta a vida de um dos grandes cantores do cenário musical brasileiro que manteve uma carreira de 54 anos, sempre fiel a seu estilo mesmo quando gravou músicas mais modernas.
            Não é minha intenção fazer comercial do espetáculo, mas deter-me na difícil tarefa de se levar ao palco ou às telas uma biografia em forma de narrativa. Nem irei me estender em explicações a respeito dos métodos que podem ser utilizados ao se escrever um roteiro que enfoque uma figura histórica.
Meu objetivo é pensar sobre os desafios que o ator enfrenta para tornar-se uma outra pessoa de carne e osso, que tem ou teve uma existência e uma interferência no mundo real. Há todo um conjunto de fatores a considerar: características físicas, aspectos psicológicos, tiques nervosos, a voz, as experiências.
Pensemos na minha ida ao cinema. Fui assistir ao filme “Chico Xavier”, no qual três atores dão vida ao médium mineiro de modo tido como impecável por muitos e irregular por outros. Mais uma vez não me deterei em análises mais aprofundadas sobre a atuação de cada um (o que é pena, pois por si só já renderia uma ótima motivação para a leitura do presente texto, deixo isto para mais tarde) preferindo continuar em meu raciocínio sobre o trabalho do ator.
Tanto no teatro quanto no cinema, o que vi foi o esforço hercúleo que o ator precisa empreender para tornar-se um outro reconhecível pelo público, para ser convincente a ponto de causar a ilusão de que a pessoa/personagem retornou do mundo dos mortos, atravessando as barreiras do tempo e do espaço e se manifesta ali em frente a uma plateia que espera vê-lo pela primeira vez, ou em alguns casos revê-lo.
No palco, Alexandre Schumacher adquire trejeitos, posturas, hábitos e até mesmo a impressionante voz de Vicente Celestino que era capaz de quebrar copos de cristal com um simples agudo. Nas telas, vemos um Chico Xavier que vai se “incorporando” na atuação precocemente equilibrada de Matheus Costa, na mansuetude bem dosada de Ângelo Antônio e na arrebatadora e ao mesmo tempo sutil de Nelson Xavier.
Em ambos os casos vi diversas pessoas saindo das exibições comentando sobre a semelhança entre os retratados e seus “retratantes”. E mais de uma vez ouvi daqueles que me sabem ator a pergunta “como é que se faz isso?”.
Pra começar, o ator necessita conhecer bem seu objeto de trabalho: ele mesmo. Ao dar vida a um personagem (seja ele histórico ou fictício), procuramos em nossa persona as características da outra. Criamos aquele personagem com uma boa dose do que somos e o amadurecemos com tudo aquilo que ele é por si só.
No caso de uma figura histórica, convém que o ator estude sua vida, veja suas imagens e procure entender como essa pessoa era, quais suas idiossincrasias e costumes, sua formação.
Acredito ser também necessário que o ator tenha o cuidado de não colocar o personagem em um pedestal, como se ele fosse alguém sobre-humano, sem defeitos ou fraquezas. Tente enxergar seu personagem como uma extensão de você mesmo, com algumas características que você não possui.
Outro risco que o ator corre é o da imitação. Já vi diversas peças teatrais e filmes que retratam figuras históricas. Noto que sempre que o ator tentou imitar o retratado, seu trabalho foi muito aquém do esperado, pois não consegue convencer, tornando-se mais um simulacro (cópia não convincente de algo) do que uma recriação; uma outra maneira de definir o resultado seria chamando-o de artificial.
A observação e a experiência me mostraram um caminho que acredito seguro para que o ator não incorra nesse problema. Ei-lo: ao invés de tentar imitar aquele a quem interpreta, o ator precisa seguir os seguintes passos:
1º.    Estudar a pessoa a ser retratada até o ponto de compreender suas motivações pessoais. Neste processo é interessante até mesmo um estudo sobre o contexto histórico em que tal pessoa vivia.
2º.    Observar, quando disponíveis, imagens (fotos e/ou vídeos) da pessoa. Neste momento o ator deverá memorizar sua linguagem corporal a fim de poder reproduzi-la (já se vê que a imitação não é de todo inútil).
3º.    Enxergar a pessoa retratada como um personagem a ser construído.
4º.    Transformar as motivações da pessoa em motivações do personagem; transformar a linguagem corporal da pessoa na linguagem corporal do personagem.
5º.    Vestir este personagem com o seguinte pensamento: “Se eu fizesse tal gesto, como eu o faria? Se eu acreditasse em tal coisa, como seria esta minha crença? Como esta ou aquela motivação interior seria exteriorizada por mim?”
Não se trata de uma cartilha a ser seguida cegamente, apenas de uma maneira que encontrei para vencer as dificuldades inerentes ao trabalho de atuação. Percebi que este processo leva a uma atuação convincente porque, ao apropriar-se de características dos personagens, o ator consegue dar um tom de naturalidade ao seu trabalho (embora não seja aqui uma interpretação naturalista, como querem alguns segmentos da arte de atuar). Conto uma de minhas experiências pessoais.
Em 2007 tive a oportunidade de interpretar Leopoldo Machado no teatro. Lancei-me ao trabalho de pesquisa com o intuito claro em minha mente de conhecer o homem por trás da história, captar o pensamento intrínseco de seus escritos e assim fui montando um retrato psicológico-histórico-pessoal do indivíduo. Eis que esbarro em um problema: a impossibilidade de conseguir imagens de vídeo de Leopoldo. Para muitos isso poderia ser um obstáculo; para mim foi uma oportunidade de testar até onde meu aprendizado havia me levado. Eu não tinha a preocupação de imitar o retratado simplesmente porque não tinha tal opção. E segui com a peça adiante.
Em uma das apresentações (mais de um ano após a estreia) havia duas senhoras na plateia que conheceram de perto o Professor Leopoldo Machado. Ao fim da mesma, ambas vieram até o camarim e, entre lágrimas, abraçaram-me dizendo que minha “imitação de nosso amigo estava perfeita! Era assim mesmo que ele era!”.
Ainda hoje eu sorrio com satisfação ao me lembrar desse fato, pois foi a primeira vez que “imitei” alguém que nunca vira e consegui o efeito desejado: ser ele.


Glaucio V. Cardoso (professorcardoso@gmail.com )
Estudioso do Espiritismo desde 1989. Professor de Literatura graduado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ. Autor de Em defesa de um Teatro Espírita, trabalho vencedor do 1º Concurso de Monografias Espíritas promovido pelo Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) em 2001. Diretor da Companhia Leopoldo Machado de Arte Espírita (Cialemarte). Ator Espírita desde 1988. Membro da Academia de Letras e Artes de Mesquita (ALAM-RJ). Contato: www.profcardoso.br30.com



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